À Conversa com Arlindo Oliveira

Rafael Belchior (RB): Fez a licenciatura e mestrado em Engenharia Electrotécnica, e depois acabou por fazer o doutoramento no estrangeiro, em Berkeley. Que recorda dos tempos de estudante aqui, no Técnico? Alguma experiência que o marcou de forma singular?

Arlindo Oliveira (A): Era uma altura em que a engenharia electrotécnica estava em rápida transformação, com os sistemas digitais. Tive muitas disciplinas todas chamadas sistemas digitais, mas que na verdade eram Programação, Sistemas Operativos, Compiladores… Gostei bastante disso. No terceiro ano, tive a oportunidade de trabalhar no INESC, e aí já tínhamos computadores. Programava-se em C e estavam ligados à nascente internet. Na altura, ainda não havia o protocolo web, mas já podíamos enviar e-mails. Os e-mails na altura não eram bem como agora: tinha-se, na maior parte dos casos, de pôr pontos de exclamação, para indicar as máquinas intermédias por onde é que a mensagem tinha de passar, pois a resolução de endereços não era como agora. Achei entusiasmante essa altura. Ainda me lembro de mais uma coisa que achei curiosa: no INESC, em 1984 ou 1985 apareceram as primeiras máquinas com interfaces gráficas. Na altura pensei “porque é que são necessárias várias janelas? Uma janela chega perfeitamente”. Foi interessante estar nos primórdios da informática como a conhecemos agora. Quando cheguei a Berkeley, em 1990, estava a aparecer a web. Estive no princípio da internet e no princípio da web.

RB: Na altura teve oportunidade de fazer alguma atividade extracurricular?

A: Antes de vir para aqui jogava xadrez muito a sério. Na altura até cheguei a pensar dedicar-me ao xadrez em vez de estudar. Lembro-me que nos primeiros anos aqui ainda continuei a jogar xadrez e a ir a campeonatos nacionais. Além de desporto, como ténis, aqui no Técnico não fiz nada mais. Não tinha muito tempo. Mais tarde, fui monitor de quarto e quinto ano. Fui monitor de Matemática e depois de Eletrónica. Entre xadrez, ténis e dar aulas como monitor, não me sobrava muito tempo, até porque eu nos primeiros anos morava no Montijo e perdia tempo nos transportes.

Na altura, não creio que houvesse muitas atividades extracurriculares no Técnico. O Técnico agora é muito diferente, muito mais rico. Curiosamente, quando cheguei a Berkeley, em 1989, lá havia muitos grupos. Pensei que era muito bom que o Técnico tivesse algo como aquilo. O que agora se vê no dia das inscrições, com vários grupos de alunos a participarem, foi em parte inspirado pelo que eu e outras pessoas vivenciamos em universidades estrangeiras.

RB: O facto de ter estudado fora acabou por alargar o horizonte de oportunidades?

A: Sim. A coisa mais marcante é que eu estudei uma área que em Portugal quase não existia: área de algoritmia e complexidade. Tínhamos pessoas a trabalhar em áreas muito específicas, mas a área de algoritmos, tal como agora aprendem, por exemplo algoritmos de ordenação, não estava desenvolvida. Tive aulas desses temas em Berkeley. Quando eu e colegas meus voltámos, fortalecemos essa área no Técnico, e equilibrou a formação da engenharia informática. O estudo lá fora foi interessante pois permitiu trazer competências que na altura não exisitam.

RB: O próprio departamento de engenharia informática ainda não tinha sido criado…

A: Foi criado em 1998. Voltei em 1994, e quatro anos depois fui convidado pelo professor José Alves Marques a integrar o departamento. Acabei por me converter. Foi nessa altura que comecei a trabalhar em bioinformática.

RB: No doutoramento, já esteva decidido a enveredar pela carreira docente?

A: Sim. Na altura era um bocado diferente. Nós entramos na carreira docente ainda antes do doutoramento. Entramos como assistentes. E depois do doutoramento tinha-se acesso direto à carreira. Entrava-se, no início da carreira, como assistente estagiário e depois do mestrado (que demorava três anos, seguidos dos cinco da licenciatura) e passava-se a professor assistente. Depois do doutoramento, que demorava de quatro a cinco anos, passava-se a professor auxiliar. A ideia de entrar só com o doutoramento é relativamente recente. Mudou só, salvo erro, em 2009.

RB: Das suas publicações, qual é para si a mais marcante?

A: A que eu gosto mais e acho mais original é um novo método para reduzir máquinas de estados. Há um método tradicional para reduzir máquinas de estado, que se baseia na descoberta de estados compatíveis e na sua fusão Esse método funciona bem, tirando alguns casos, onde há explosão do número de compatíveis. Eu e um aluno, na altura, desenvolvemos um método que não depende da enumeração dos compatíveis. Em geral, não é tão eficiente como o método tradicional, mas em alguns casos particulares é muito mais eficiente. Eu gosto muito desse artigo. Houve outros artigos com algum impacto. Há um survey sobre bi-clustering que teve muito impacto.

Ainda há um artigo que eu gosto, que toca na questão de pôr uma watermark numa máquina de estados. Há uma máquina de estados que é posta num processador. Pode-se pôr (e esconder) uma watermark num circuito, e se alguém o tentar copiar, pode-se demonstrar que aquele circuito é teu, validando a watermark. Projeta-se a máquina de estados e depois vende-se a propriedade. Uma pessoa faz circuitos integrados e depois pode protegê-los. Independentemente das transformações que a máquina venha a ter, a marca mantem-se. Mesmo que o resultado final seja um chip que não tem nada a ver com a linguagem original, posso demonstrar que aquela é a minha máquina de estados, independemente das transformações, pois tem a marca de água. Acaba por ser uma maneira de proteger propriedade intelectual.

RB: Para os alunos de mestrado, que querem seguir uma carreira de investigação nas áreas de inteligência artificial (IA) ou de bioninformática, que conselhos é que tem para que se posicionem da melhor maneira?

A: A inteligência artificial tem envolvidas, a meu ver, muitas áreas e duas visões um pouco diferentes. Uma é pegar em tecnologias e software que já existem e desenvolver novas aplicações. É uma via com grande valor económico: qualquer pessoa pode fazer, seja por conta própria, ou por conta de uma empresa, ou criando uma startup. Este tipo de aplicações é simples e qualquer aluno, entre dois a três meses aprende a fazê-lo. Fazer novos desenvolvimentos em inteligência artificial é muito difícil. Neste momento há milhares de pessoas a trabalhar nisso. Há empresas como a DeepMind, a Google, o Facebook, a Amazon que têm equipas muito grandes a trabalhar nisso. Embora seja uma área onde é sempre possível fazer contribuições, não é fácil garantir que um aluno entra e faça contribuições importantes. Acho que há essas duas visões. Que opções se podem tomar para ter mais sucesso nessa linha: se fosse agora começar (e não me importava, pois acho que é uma área muito interessante), primeiro tentaria aprender e ver com cuidado as coisas importantes o que já existem. Ir a algumas conferências e tentar perceber mais ou menos o estado da arte. Dedicava mais ou menos um ano a isto. Depois tentava pegar nessas ideias e ver no que é que se poderia fazer alguma contribuição. Há tanta coisa escrita que não é fácil.

RB: Numa outra vertente: qual o maior desafio em ser presidente do Instituto Superior Técnico?

A: Há dois grandes desafios: um é a falta de recursos. Nós estamos a tentar gerir uma escola de nível europeu, de nível mundial, com uma enorme escassez de recursos, principalmente financeiros, mas não só. Para teres uma ideia, o Técnico recebe do estado cerca de 50 milhões de euros por ano, e o orçamento do Técnico é cerca de 100 milhões de euros por ano. Muitas das escolas com quem nos comparamos, têm orçamentos que são dez vezes o nosso. Algumas escolas têm tanto orçamento como todo o sistema de ensino superior nacional. A Universidade Técnica de Munique tem um orçamento de dois mil milhões de euros. Todo o ensino superior nacional tem um orçamento de mil milhões de euros.

O Técnico ainda consegue ser uma das quinze melhores escolas da europa. Isto é de facto um enorme desafio. Um outro grande desafio é a burocracia. O IST é uma instituição pública, vai continuar a ser uma instituição pública, e gerir instituições públicas em Portugal é muito difícil. Por exemplo, para adquirir equipamentos ou fazer obras não se pode adjudicar um fabricante. Tem de se ir a concurso público. As limitações de recursos financeiros e a burocracia “infernal” que é gerir uma instituição pública em Portugal são seguramente os maiores desafios.

RB: O valor real que o estudante do IST custa ao estado é bastante superior ao valor das propinas que pagamos. É sustentável?

A: Estimamos que o custo de um aluno por ano são cerca de 7000€, dos quais o estudante paga 1000€, o estado paga cerca de 4000€ e os outros 2000€ é a própria instituição que arranja em projetos de investigação, financiamento dos parceiros, e outros. Isto dá uma ideia da escassez de recursos. Entre as propinas e o estado devia-se pagar o custo do estudante. E depois dá para ver que as instalações não são o que gostaríamos que fossem. O apoio que é dado aos grupos de alunos são valores baixos e há sempre muita competição.

RB: Dado este esforço que é feito para garantir o máximo de condições, com recursos escassos, o que podemos fazer enquanto engenheiros, quando nos formarmos, para contribuir para a comunidade escolar e para o nosso país?

A: Há uma coisa que podem fazer e que temos tentado incentivar. Existe noutros países como os Estados Unidos e a Inglaterra. As pessoas que se graduam aqui deviam reconhecer valor nessa formação. Logo após se graduarem estão um pouco cansadas, porque o IST é muito exigente, mas após uns anos as pessoas começam a dar valor e ajudam a escola. O ajudar pode ser de muitas maneiras: há pessoas que, felizmente, vão ficar ricas, criam empresas e é natural que ajudem financeiramente. Há outras pessoas que podem ajudar, trabalhando com os atuais alunos. A ideia de voltar à escola, quer seja para ajudar o aluno, financeiramente, trazer novas ideias, ensinar coisas que aprenderam é muito importante. Temos estado a tentar fortalecer essa ideia. Acho que tem melhorado. Temos muitos eventos com alumni e alunos atuais.

É preciso, devagar, mudar a forma como as pessoas que estão aqui pensam. As pessoas que estão aqui percebem que há valor nos antigos alunos desta escola e depois, quando sairem, ajudam de volta. Estamos a tentar criar este ciclo de entre-ajuda entre os antigos e os atuais alunos. Há uma associação de antigos alunos, que é uma associação independente, que vai ao encontro destes objetivos. Acima de tudo, independentemente do mecanismo, o importante é que esta rede, com cerca de sessenta mil alunos que passaram no Técnico reconheça o valor da sua formação e que ajude a beneficiar as novas gerações.

RB: Nesta instituição, aprendemos sobretudo a pensar. É algo que nos é incutido pelos professores, e pela metodologia destes. No entanto, quando saimos da escola, o caminho não é linear, na maior parte das vezes. Tem alguma mensagem para os alunos que queiram implementar a sua visão neste mundo e que estejam a passar por dificuldades?

A: Qualquer aluno do IST tem a capacidade e a competencia necessária, dada a alta seletividade para entrar no Técnico. Não é, no entanto, dizer que esses alunos vão acabar com sucesso. O que recomendo para tal é autodisciplina. Neste momento há tantas solicitações, desde os jogos, às redes sociais, à praia, ao surf, às cervejas, que é relativamente difícil que a pessoa se discipline. As dificuldades de tempo que toda a gente sente agora vão ser muito mais sérias no futuro. Isto parece difícil agora, provavelmente será ainda mais difícil. A minha sugestão é que se tentem disciplinar, até porque há um fenónomo: quando se está a estudar no Técnico, isto parece muito difícil, vemos pessoas mais bem-sucedidas que nós, mas costumo dizer que isto é só aqui. Quando os alunos do Técnico sairem, vão ser os melhores no vosso domínio. Esta sensação que são um aluno médio só acontece enquanto se está aqui. Quando forem para as empresas não vão ser pessoas médias, estão muito acima da média. Acho que isso vai ser extremamente reconfortante. Curiosamente fui para Berkeley e também percebi isso: embora fosse uma boa escola, nós, alunos do Técnico, continuamos a ser altamente competitivos.

Quando forem para uma empresa, vão perceber que a sensação de se ser um aluno médio desaparece. A minha sugestão é acabem o curso. Vão ver que valeu a pena tudo o que aprenderam aqui. Acima de tudo, terem aprendido a resolver problemas e terem aprendido a ter disciplina e capacidade de trabalho. A informática, curiosamente, é dos cursos onde o que se ensina está mais diretamente aplicado ao mercado de trabalho. Cursos como Aeroespacial, Física e Matemática Aplicada são cursos onde há uma grande carga conceptual, mas depois quando se vai para o mercado de trabalho vai ter de se aprender a tarefa em mãos. Alguns cursos são mais vocacionais, como informática e civil. Mas ao fim de dez ou vinte anos, já não se vão utilizar as linguagens e ambientes, programas e compiladores que se utilizam agora. O que é importante é ter aprendido a pensar, tal como disseste. Essa parte é mais valiosa, mesmo nos cursos onde mais se aprendem coisas úteis para o mercado de trabalho, como é no caso de infomática.

RB: Apesar de achar as áreas de inteligência artificial e bioinformática apelativas, decidi estudar a tecnologia blockchain. Esta tecnologia, comparativamente à IA, acaba por se posicionar num extremo oposto de um mesmo espetro, ou até mesmo em espetros diferentes: a Inteligência Artificial promove inteligência centralizada utilizando dados tipicamente privados, ao passo que a tecnologia blockchain promove aplicações descentralizadas, em que os dados são normalmente públicos. Acha que há algum espaço para sinergias entre estas tecnologias bastante diferentes, e que possam ser utilizadas para satisfazer um objetivo comum?

A: Na altura fui a uma conferência que tinha como temas a inteligência artificial e blockchain. Na altura expliquei aos organizadores que são dois temas diferentes que têm pouco a ver um com o outro. Eles insistiram que fossem os dois temas juntos e eu fui investigar as relações. Há algumas relações: cada um de nós tem um conjunto de dados pessoais muito importante. Nós e a Google [RISOS]. Podemos imaginar, por exemplo, uma tecnologia onde os nossos dados estão guardados e podemos decidir dá-los, vender, alugar a outras entidades. Há uma maneira visionária de fazer isto: vamos admitir que os dados estão distribuídos numa rede blockchain, e via blockchain posso garantir autenticidade dos dados, juntar mais dados e dar acesso aos mesmo para uma dada empresa. Há aqui espaço para sinergias com a IA. No entanto, eu acho que o potencial de crescimento de blockchain e inteligência artificial não é comparável: inteligência artificial têm muitíssimas aplicações em muitas áreas. O blockchain é uma tecnologia importante, mas com aplicações mais limitadas.

RB: No seu livro, Digital Minds, não toca numa questão particularmente subtil, que tem tendência a gerar debate. Esta debate toca na dicotomia religião-ciência, em particular, a questão da alma. Acha que essa questão poderá ser respondida com o progresso tecnológico?

A: A razão pela qual eu não toco este tema (apenas em entrelinhas) é porque se eu tocasse eu tinha de argumentar que não há qualquer evidência científica da existência de alma. Ou seja, da existência de qualquer entidade não física que possa ser vista como a alma. O facto de não existir qualquer evidência não significa que não exista. Pode existir. O problema é que em princípio eu e muitas pessoas como eu acreditam que todos fenómenos no mundo e o universo podem ser explicados sem o recurso a essa entidade não física. Torna-a redundante. Se é possível explicar tudo sem a sua existência, então quer exista quer não, não afeta muito.

Várias pessoas tentaram fugir a isto, argumentando que embora não afete é importante. Nenhuma delas apresentou argumentos muito convincentes. Nenhuma das pessoas que acredita no dualismo e na existência de uma alma, que é essencial para uma posição religiosa, conseguiu dar um argumento válido para responder “o que é que a alma influencia”? Depois as questões como a vida eterna, Deus ser mau ou bom, às vezes são deuses… Eu costumo dizer que eu não sou muito diferente de uma pessoa profundamente católica: eu não acredito em nenhuma das setecentas religões que existem no mundo; a pessoa católica não acredita em seiscentas e noventa e nove delas.

A minha posição é realmente cética. As pessoas têm as suas crenças, e desde que não afetem a racionalidade do mundo físico, não fazem mal. Às vezes afetam: às guerras religiosas que vemos são um problema. A razão pela qual não abordei isso é porque a minha abordagem seria como a do Richard Dawkins, a do Steven Pinker ou a do Yuval Harari, que são abordagens completamente contra a religião. O que eles dizem todos, e eu concordo, é que os homens inventaram os deuses.

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